Historicamente a primeira Classe Hospitalar que se tem notícia, teve seu início em 1935, nos arredores de Paris, quando Henri Sellier
inaugurou a primeira escola para crianças inadaptadas. Seu exemplo foi seguido na Alemanha, em toda a França, na Europa e nos Estados Unidos, com o objetivo de suprir as dificuldades escolares de crianças tuberculosas. Pode-se considerar como marco decisório do serviço pedagógico em hospital.
Na Segunda Guerra Mundial, o grande número de crianças e adolescentes atingidos, mutilados e impossibilitados de ir à escola, fez criar um engajamento, sobretudo dos médicos, que hoje são defensores da escola em seu serviço.
Em nosso país a primeira classe hospitalar surgiu na cidade do Rio de Janeiro, no início da década de 50, no Hospital Municipal Jesus, e se tornou referência nacional no âmbito da educação especial por manter suas atividades em funcionamento ininterruptamente até os dias de hoje. A importância das classes hospitalares já é reconhecida legalmente por meio do Estatuto da Criança e do Adolescente Hospitalizado, na resolução nº 41 de outubro de 1995, que em seu item 9 fala sobre o “Direito de desfrutar de alguma forma de recreação, programas de educação para a saúde e de acompanhamento do currículo escolar durante sua permanência hospitalar”.
Em novembro de 2000, foi aprovada a lei 10.685, que determina que hospitais ofereçam às crianças e adolescentes um bom atendimento educacional, que permita o desenvolvimento intelectual e pedagógico, bem como o acompanhamento do currículo escolar. Porém, mesmo com a previsão legal, a prática não é corriqueira. Ainda não são todos os hospitais pediátricos brasileiros que dispõem de uma estrutura adequada. Em todo o Estado de São Paulo, por exemplo, existem aproximadamente de 35 classes hospitalares em funcionamento – um número considerado pequeno perto do número de internações infantis. A criação de classes hospitalares é resultado do reconhecimento formal de que crianças hospitalizadas, independentemente do período de permanência na instituição, têm necessidades e direitos que devem ser garantidos dentre eles a escolarização.
Fonseca e Ceccim (1999), dizem que esse não é fenômeno recente, abordam o assunto e esclarecem que, a partir da segunda metade do século XX, observou-se que, em países desenvolvidos, como Inglaterra e Estados Unidos, orfanatos, asilos e instituições que prestavam assistência a crianças violavam aspectos básicos do desenvolvimento emocional das mesmas, por falta de atendimento integral. Concluiu-se igualmente que tais lacunas apresentavam o risco de seqüelas as quais, na vida adulta, poderiam evoluir para condições psiquiátricas sérias.
Decorreu daí a iniciativa de programar vivências pedagógicas para crianças e jovens internados em instituições hospitalares. Com o transcorrer do tempo, a providência foi também incorporada a hospitais brasileiros, com idêntico objetivo.
Em acordo com a Constituição Federal, 84-93, 1999, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, 9394 de 1996 e com o Estatuto da criança e adolescente hospitalizado, 1999, a atenção ao aluno que está impossibilitado temporária ou permanentemente de freqüentar a escola, passou a ser olhado e cuidado pela educação especial, com o objetivo maior de cumprir com os direitos à educação, no aspecto de cuidado integral e no paradigma da inclusão, contribuindo o pedagogo, com a equipe da saúde em relação à humanização no espaço hospitalar.
Tendo a necessidade e a existência de demanda de pacientes em situação de internação breve ou longa, o Hospital Municipal Dr. Mário Gatti, em parceria com a Secretaria Municipal de Educação, deu início ao cuidado integral do paciente primeiramente na Enfermaria Pediátrica no ano de 1991, no Serviço de Urgência e Emergência (PSI) em 2008, e no Complexo Hospitalar Ouro Verde em 2009. Ambos com a denominação de Classe Hospitalar, atendendo crianças e adolescentes, nestes espaços acima citados.
Entende-se por Classe Hospitalar o atendimento pedagógico-educacional que ocorre em ambientes de tratamento de saúde, seja nas circunstâncias de internação, seja na circunstância de atendimento de atenção integral à saúde. Ampliando-se este atendimento para o serviço de urgência e emergência, com as características do HMMG, que é considerado um hospital “porta aberta”.
A pedagogia no ambiente hospitalar realiza seu trabalho nos momentos em que os paciente/alunos estão em situação de sensibilidade e estresse oferecendo primeiramente a escuta pedagógica, e a partir desse contato, tem início todo um trabalho pedagógico.
As ações dos pedagogos neste serviço são: Colaborar com a humanização no ambiente hospitalar; acompanhamento pedagógico através da continuidade da escolaridade formal, em conjunto com a escola de origem do aluno, mantendo a sistematização de atividades e vivências pedagógicas; Referendar e articular em conjunto com a equipe multiprofissional, informações e encaminhamentos; Favorecer meios auxiliares à superação das dificuldades de aprendizagem; Identificar e encaminhar alunos com deficiências para possíveis escolas municipais ou serviços de parcerias com a Secretaria Municipal de Educação, colaborar com a evolução do aluno/paciente; colaborar com a equipe de saúde do setor para minimizar o estresse causado pela internação, através de vivências pedagógicas; orientar o paciente/aluno e a família a respeito de procedimentos que irá ser submetido;
A escuta pedagógica, do paciente está presente em todos os momentos. A ação e a relação com a sua história de vida, sua realidade, sua relação familiar, e sua situação escolar, colabora com o nosso olhar integral. Mediamos o contato com a escola de origem, quando necessário, orientando quanto aos atendimentos clínicos dando as referencia de seu Centro de Saúde, ONG ou entidades conveniadas a PMC.
O tempo para as intervenções pedagógicas no PSI podem variar de poucas horas a alguns dias, portanto foi necessário que desenvolvêssemos estratégias pedagógicas próprias a este serviço procurando ir além de atividades pedagógicas, elegemos o brincar como um recurso que colabora para as intervenções. Através do brincar, a criança explora o mundo e expressa suas emoções, medos, angústias, dores, enfim seus sentimentos. No momento da internação o familiar o acompanhante ou responsável pelo paciente/aluno, acabam tendo um tempo de atenção exclusiva a ele, fato este que no dia a dia muitas vezes não é possível, procuramos então, propiciar condições para que aproveitem esse momento. Como recursos pedagógicos utilizamos a literatura infanto juvenil, desenhos específicos para as idades dos pacientes/aluno, jogos variados, gibis;caça-palavras, dentre outros. No decorrer do ano trabalhamos com temas especificamente planejados em nosso Plano de Trabalho anual que é parte da Proposta Pedagógica do Município de Campinas-SP, além de temas de Saúde Pública, que surgem a cada ano.
Enfim, procuramos unir educação e saúde sem território determinado, focando o olhar em direção a criança/paciente hoje.
Suzana de Oliveira Marcondes
BIBLIOGRAFIA
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GOHN, Maria da Glória. Educação não-formal e cultura política: impactos sobre o associativismo do terceiro setor. São Paulo: Cortez, 1999. (coleção questões da nossa época, v.71).
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